sábado, 6 de fevereiro de 2016

Exercício 5 - Promessa cumprida, silêncio rompido

Por Jânsen Leiros Jr

Revisado e ampliado em 27/05/2024

 

"57 Ao se completar o tempo de Isabel dar à luz, nasceu-lhe um filho 58 Todos os seus vizinhos e parentes ouviram falar da grande misericórdia com a qual o Senhor a havia contemplado e muito se alegraram com ela.

59 No oitavo dia levaram o menino para ser circuncidado, e desejavam dar-lhe o nome do pai, Zacarias. 60 No entanto sua mãe tomou a palavra e afirmou: “Não! O nome dele deverá ser João”. 61 Ponderaram-lhe: “Mas ninguém há entre teus parentes que se chame assim”. 62 Então, através de sinais, consultaram o pai do menino que nome queria que lhe dessem. 63 Ele pediu uma tabuinha e, para surpresa de todos, escreveu: “O nome dele é João”. 64 No mesmo instante sua boca se abriu, sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus. 65 Toda a vizinhança foi tomada de grande temor e por toda a região montanhosa da Judéia se comentavam esses fatos. 66 E aconteceu que todos quantos ouviam falar dessas ocorrências ficavam imaginando: “O que virá a ser este menino?” Pois a boa mão do Senhor estava com ele.

67 Então, seu pai Zacarias foi cheio do Espírito Santo e profetizou:

68 “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel, pois que visitou e redimiu o seu povo.

69 Ele concedeu poderosa salvação na casa de Davi, seu servo.

70 Assim como prometera por meio dos seus santos profetas desde a antiguidade.

71 Salvando-nos dos nossos inimigos e das mãos de todos os que nos odeiam,

72 para demonstrar sua misericórdia aos nossos antepassados e recordar sua santa aliança,

73 o juramento que prestou ao nosso pai Abraão.

74 Que nos resgataria da mão de todos os nossos inimigos, a fim de o servirmos livres do medo,

75 em santidade e justiça na sua presença, durante todos os dias de nossas vidas.

76 Tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo, pois marcharás à frente do Senhor, para lhe preparar o caminho.

77 Para proclamar ao seu povo o conhecimento da salvação, mediante o perdão dos seus pecados.

78 E isso, por causa das profundas misericórdias de nosso Deus, através das quais dos céus nos visitará o sol nascente,

79 para iluminar aqueles que estão vivendo em meio às trevas, e guiar nossos pés no caminho da paz”.

80 E o menino crescia e se robustecia em espírito; e viveu no deserto até o dia em que havia de revelar-se publicamente a Israel.

Lucas 1:57-80 - KJA

O nascimento de João foi uma evento de grande alegria para toda a aldeia e moradores daquela região. Antes discriminada por sua infertilidade, Isabel dá à luz surpreendendo a muitos que a consideravam estéril, e incapaz de suscitar descendência a seu marido. Ela havia se ocultado por cinco meses desde a concepção do menino. O motivo não nos é explicitamente declarado, mas talvez preferisse reservar-se a ter que dar maiores explicações, pois certamente não faltariam indagações sobre o ocorrido. Afinal, tal gravidez não podia ser um fato natural. E ela sabia que não era.

Quando porém Maria foi visitar Isabel e toda aquela revelação se descortinou às duas mães, se esta tinha algum medo quanto a sustentação de sua gravidez, ou mesmo dúvida sobre o menino que se formava em seu ventre, certamente essa dúvida de dissipou. Todavia o que se passara na intimidade do lar de Zacarias e Isabel, só foi conhecido quando do nascimento do menino, cujo evento tomou a muitos de surpresa.

Há um detalhe bastante curioso nesse texto. Notem que Zacarias não volta a falar quando do nascimento do filho. Ele sequer pode com os lábios louvar a Deus por sua herança, pois estava emudecido pelo anjo, desde o anúncio de sua concepção, do que duvidara em seu coração, crendo, no fundo, que circunstâncias são mais determinantes e poderosamente impeditivas, do que a poderosa vontade de Deus, que desconhece condições ou barreiras.

Foi então que, na cerimônia de apresentação e circuncisão do menino, em cumprimento è lei e tradições judaicas, principalmente sendo Zacarias um sacerdote, que seus lábios voltaram a pronunciar palavras. Outra curiosidade circunstancial, foi a insistência dos vizinhos e moradores da aldeia para que o nome da criança fosse Zacarias, em homenagem àquele pai que agora emudecido, muito havia suplicado por seu nascimento. Caso suas sugestões fossem acatadas, a promessa do anjo não se cumpriria, e não cumprida Zacarias não teria de volta a possibilidade de falar. Será?

Isabel sabia que o menino, por orientação do anjo deveria se chamar João. E ela avisa às pessoas que ministravam aquela cerimônia. Contra argumentando não haver parente algum com aquele nome que justificasse a possível homenagem, eles desconsideraram a resposta de Isabel e se dirigiram ao pai, autoridade que poderia efetivamente arbitrar no nome do menino. Afinal, mulher não tinha voz naquela sociedade. A surpresa maior ficou por conta da confirmação do nome do menino pelo próprio pai. Seu nome será João. E eu imagino Isabel com ares de vitória dizendo para si mesma ou bem baixinho, não falei?... se me permitem uma ilação criativa.

Ao confirmar o nome do menino, Zacarias realiza o anunciado pelo anjo. Então, como este lhe havia predito, ele volta a falar, louvando a Deus não só pela recuperação da voz, mas por tudo o que Deus lhe havia feito, desde o resgate de sua humilhação. Sim, desde a dúvida em seu coração, que Zacarias não falava, não se pronunciava, não se fazia ouvir. Ou seja, se duvidamos daquilo que Deus nos anuncia, do que é que falaremos? Ou, para o que serve a voz senão para replicar o anúncio da boa nova. Se Israel não acreditava em Deus, de que lhes serviriam profetas e arautos? O silêncio de Zacarias bem pode tipificar o silêncio de Deus imposto a Israel por tantos anos, até que chegasse João[1].

Finalmente falante e pleno de felicidade, Zacarias é cheio do Espírito Santo, e louva a Deus, profetizando o resgate do seu povo, pois seu filho seria aquele que viria à frente do rei de Israel, do ungido de Deus, que livraria seu povo do medo e da opressão. Não percamos de vista que, a exemplo do que vimos falando desde o início, Zacarias fala de uma restauração nacional, de uma libertação do julgo romano. Ele fala da recuperação do orgulho de ser judeu. Sim, vitória concedida por Deus. Porque as questões nacionais eram problemas relacionados a Deus. Afinal, Israel era seu povo e Jeová o seu Deus.

Zacarias, contudo, aponta para um entendimento revelador. Para os judeus a ação de Deus em favor do seu povo estava intimamente ligada e por que não dizer condicionada, ao arrependimento e o perdão dos seus pecados[2]. Ora, Israel havia dado as costas a Deus, não obstante todas as coisas que Deus já lhes havia feito. Sua relação nacional com Deus se condicionava a períodos de infortúnios. O povo se arrependia e Deus os perdoava concedendo-lhes em sequência dias melhores. Então novamente o povo Lhe dava as costas, perdendo-se pelo deserto de suas almas. Arrependei-vos, clamaria João vindo do deserto. Arrependei-vos porque é chegado o reino de Deus.



[1] A presunção de que o silêncio de Zacarias, emudecido pelo anjo, tipifica o silêncio de Deus através de profetas até o surgimento de João Batista é uma interpretação teológica interessante e válida, dentro de uma abordagem tipológica da Bíblia. Vejamos como essa ideia se sustentaria bíblica e teologicamente:

Contexto Bíblico

1.       O Silêncio de Zacarias:

·         Lucas 1:19-20: "Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para te falar e trazer estas boas novas. Todavia ficarás mudo e não poderás falar até o dia em que estas coisas aconteçam, porquanto não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se hão de cumprir."

·         Zacarias, sacerdote do templo, é emudecido como sinal de sua incredulidade quanto à mensagem do anjo Gabriel sobre o nascimento de João Batista.

2.       O Silêncio Profético:

·         Período Intertestamentário: Aproximadamente 400 anos de silêncio profético, entre o último profeta do Antigo Testamento (Malaquias) e o surgimento de João Batista, que é considerado o último profeta do Antigo Testamento e o precursor de Cristo.

Interpretação Tipológica

A tipologia é um método de interpretação bíblica onde eventos, personagens e instituições do Antigo Testamento são vistos como prefigurações ou "tipos" de verdades reveladas no Novo Testamento. Vamos considerar como o silêncio de Zacarias pode ser visto tipologicamente:

1.       Zacarias como Representante do Sacerdócio e da Profecia:

·         Zacarias era um sacerdote e, simbolicamente, seu emudecimento pode representar o fim do antigo sistema profético e sacerdotal, preparando o caminho para a nova revelação em Cristo.

·         O silêncio de Zacarias até o nascimento de João Batista pode ser visto como um período de espera e preparação para a nova era de revelação.

2.       João Batista como a Voz que Quebra o Silêncio:

·         Lucas 1:76: "E tu, menino, serás chamado profeta do Altíssimo; porque precederás o Senhor, preparando-lhe os caminhos."

·         João Batista é identificado como a "voz que clama no deserto" (Isaías 40:3; Mateus 3:3), marcando o fim do silêncio e o início da proclamação do Reino de Deus.

3.       O Silêncio de Deus e a Plenitude dos Tempos:

·         Gálatas 4:4: "Mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei."

·         O período de silêncio pode ser visto como uma preparação divina para a "plenitude dos tempos", culminando no advento de Cristo e no ministério de João Batista, que introduz Jesus.

Considerações Teológicas

·         Incredulidade e Revelação: O silêncio de Zacarias devido à sua incredulidade pode simbolizar a incredulidade e a resistência de Israel durante o período de silêncio profético. A abertura de sua boca no nascimento de João Batista simboliza a renovação da profecia e a revelação divina.

·         Transição de Eras: O emudecimento e posterior fala de Zacarias podem representar a transição da antiga aliança para a nova aliança, com João Batista sendo o elo de ligação entre os profetas do Antigo Testamento e a nova revelação em Cristo.

Sim, é possível e teologicamente defensável presumir que o silêncio de Zacarias tipifica o silêncio de Deus através de profetas até o surgimento de João Batista. Essa interpretação destaca a importância do papel de João Batista como precursor de Jesus e marca a transição crucial na história da salvação, onde o silêncio de Deus é rompido pela proclamação do Reino de Deus.

 

[2] Embora o conceito de que a vinda do Messias estivesse interligada ao arrependimento de Israel fosse amplamente aceito, sua interpretação variava entre os diferentes grupos judaicos. Os fariseus, com sua ênfase na Lei e na tradição oral, esperavam que a observância rigorosa preparasse o caminho para o Messias. Os saduceus, focados no Templo e nas realidades políticas, não enfatizavam tanto uma expectativa messiânica. Já os essênios, com sua busca por pureza e separatismo, aguardavam um Messias que os libertasse da corrupção e da opressão. Cada grupo, portanto, defendia e praticava suas crenças de acordo com suas próprias interpretações e expectativas messiânicas.

O Conceito Messiânico no Judaísmo

a. Esperança Messiânica

·         Contexto Bíblico e Histórico: A esperança messiânica estava profundamente enraizada nas Escrituras Hebraicas (o Antigo Testamento). Profecias como as encontradas em Isaías (11:1-9), Jeremias (23:5-6) e Miqueias (5:2) apontavam para um futuro líder ungido (Messias) que restauraria Israel.

·         Conexão com Arrependimento: Muitos textos proféticos também associam a vinda de um tempo de restauração com o arrependimento e a fidelidade de Israel a Deus. Por exemplo, o livro de Joel (2:12-13) chama o povo ao arrependimento e promete bênçãos futuras.

A Interligação Cultural e Religiosa

a. Arrependimento e Redenção

·         Profecias e Arrependimento: A ideia de que o arrependimento de Israel estava ligado à vinda do Messias tem suas raízes nas profecias. Por exemplo, em Isaías 40:3-5, uma voz clama no deserto preparando o caminho para o Senhor, associada ao chamado ao arrependimento.

·         Literatura Rabínica: Textos rabínicos posteriores também refletem essa crença. O Talmude, por exemplo, menciona que se Israel observar dois sábados consecutivos corretamente, será redimido (Shabat 118b).

b. Prática Religiosa

·         Rituais e Práticas: A observância dos mandamentos, práticas de purificação e sacrifícios no Templo eram vistos como meios de manter a relação com Deus e preparar o caminho para a redenção.

·         Relação com Deus: A crença de que a fidelidade à Lei e o arrependimento atraíam a benevolência divina e preparavam a chegada do Messias era amplamente aceita.

 

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Exercício 4 - Maria, mãe de quem?

Olívia Hussey no papel de Maria em Jesus de Nazaré - 1977
Por Jânsen Leiros Jr
Revisado e ampliado em 28/04/2024


"39 Durante aqueles dias, Maria preparou-se e saiu rapidamente em viagem para uma cidade da região montanhosa da Judéia. 40 Chegou à casa de Zacarias e foi saudar Isabel. 41 Assim que Isabel ouviu a saudação de Maria, o bebê agitou-se em seu ventre, e Isabel ficou plena do Espírito Santo. 42 E, com um forte grito, exclamou: “Bendita és tu entre todas as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre! 43 Mas, qual o motivo desta graça maravilhosa, que me venha visitar a mãe do meu Senhor? 44 Pois, no mesmo instante em que a tua voz de saudação chegou aos meus ouvidos, o bebê que está em meu ventre agitou-se de alegria. 45 Bem-aventurada é aquela que acreditou que o Senhor cumprirá tudo quanto lhe foi revelado!”
46 Então declarou Maria: “Engrandece minha alma ao Senhor,
47 e o meu espírito se regozija em Deus, meu Salvador,
48 pois contemplou a insignificância da sua serva. Mas, de hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada,
49 porque o Poderoso realizou maravilhas a meu favor; Santo é o seu Nome!
50 A sua misericórdia estende-se aos que o temem, de geração em geração.
51 Ele operou poderosos feitos com seu braço; dispersou aqueles cujos sentimentos mais íntimos são soberbos.
52 Derrubou governantes dos seus tronos, mas exaltou os humildes.
53 Supriu abundantemente os famintos, mas expulsou de mãos vazias os que se achavam ricos.
54 Ajudou a seu servo Israel, recordando-se da sua misericórdia infinda
55 a favor de Abraão e sua descendência, para sempre, assim como prometera aos nossos antepassados”.
56 E Maria permaneceu com Isabel por cerca de três meses, quando então retornou à sua casa."
Lucas 1:39-56 - KJA

Tenho particular admiração por esse trecho do Evangelho, e confesso que me divirto um pouco ao ver algumas pessoas se remexendo nos assentos toda vez que a saudação de Isabel, bem como o cântico de Maria, são lidos em aulas da EBD ou em mensagens dos púlpitos. Se bem que, na verdade, quase nem há mais EBD, e pouquíssimas vezes se ouvem dos púlpitos mensagens sobre essa passagem. De qualquer forma, esses versículos insistem em causar desconforto à maioria dos crentes, sendo de difícil interação com o povo evangélico. Mas por quê? 

Quando em nossas igrejas de tradição reformada, por ocasião das datas comemorativas relacionadas às mulheres, poucas vezes encontramos Maria sendo citada, ou mesmo usada como exemplo. Ela sequer é apontada como referência de santidade e submissão. Diversas outras mulheres ocupam esse espaço, sendo-lhe deferida uma indiferença de consenso velado, na tentativa de impingir-lhe uma insignificância casual, ou mesmo um desinteresse conveniente por sua participação na encarnação do Verbo de Deus. O que, sem sombra de dúvida, é uma injustiça histórica e desnecessária. O que nos faz temer Maria[1]? 

Ora, tanto a saudação de Isabel quanto o cântico de Maria são exemplos de adoração espontânea e extremamente significativos, porque declarados por mulheres que experimentavam, naquele momento tão singular, um entusiasmo revelador divino, motivado pelo Espírito nelas. Sim, revelador, porque o que Isabel afirma quanto à reação da criança em seu ventre é que esta acusou a presença do seu Senhor. Notem que até então não havia qualquer registro de que Isabel soubesse de eventual gravidez de Maria. Ou seja, o Espírito de Deus que lhe encheu quando sua criança ouviu a voz de Maria, lhe revelou não só a gravidez, como também de quem se tratava a vida que em Maria se desenvolvia. Maria seria mãe do Messias prometido. 

"Bem-aventurada é aquela que acreditou que o Senhor cumprirá tudo quanto lhe foi revelado!”. Aquele era um encontro de duas mulheres em estado de graça, resgatadas de suas condições nada favoráveis. Isabel era discriminada por ser considerada estéril, condição pela qual era menosprezada e humilhada em sua comunidade. A infertilidade era um sinal de provável castigo ou desfavor divino[2]. Já Maria não entendia muito bem porque havia sido ela a escolhida. Entendia-se incapaz[3]? Embora descendente do Rei Davi, não era uma herdeira palaciana, de onde se imaginava que surgiria um Messias restaurador do reino de Israel. Ambas haviam encontrado graça diante de Deus, e estavam provavelmente imersas em alegria e contentamento. Ambas se sabiam envolvidas na redenção de Israel[4]. 

"Bendita és tu entre todas as mulheres, e bendito é o fruto de teu ventre!" Ao lermos isso, logo nos vem à mente a reza de exaltação à Maria, não é mesmo? Parece mesmo, diria alguém. Não, não parece. É isso mesmo[5]! E a despeito do pensamento maniqueísta de alguns incipientes na fé, não, a frase dessa oração comumente proferida por católicos, não é uma coisa inventada pelo diabo. É bíblica e é maravilhosa. Porque qual maior honraria poderia uma mulher receber do que gestar seu Salvador e Senhor, Senhor dela e nosso? Bendita foi Maria entre as mulheres, bem como bendito foi o fruto de seu ventre, Jesus; o Verbo que se fez carne e habitou entre nós. Sim, Maria foi bendita entre todas as mulheres de seu tempo, bem como entre todas antes e depois dela, pois foi somente a ela concedida tal graça. Não há mal algum em reconhecermos isso. E assim como louvamos a Deus pela vida de tantos outros servos seus, dedicados em fé e primordiais no cumprimento de sua vontade e graça, também podemos dar graças a Deus pela vida de Maria, a mãe de Jesus. Como tantos outros, vaso de misericórdia, para a glória de Deus. 

E não só isso, mas também podemos utilizar seu exemplo de submissão em fé e coragem em confiança, pois apesar das conhecidas e graves consequências por sua gravidez incomum[6], não deixou de se dispor ao cumprimento da vontade de Deus em sua vida, ainda que tudo o que estava para acontecer estivesse muito além de sua compreensão e entendimento. Sim, porque as palavras do anjo Gabriel que vimos no exercício passado, que hoje entendemos a que exatamente se referia, naquele instante, àquela Maria que recebia a notícia, tinham um outro significado. Apontavam para uma condição de restauração do orgulho nacional do povo judeu, muito diferente do que aconteceria mais tarde, na prática, diante de seu olhar perplexo e de seu coração enlutado. 

"De hoje em diante, todas as gerações me chamarão bem-aventurada." E ela estava certa quanto ao seu lugar na história. Sua graça recebida é mesmo destacável, e nenhuma mulher poderá sentir o que ela sentiu em relação àquela graça. Os versículos seguintes, porém, deixam claro que Maria imaginava que dela nasceria um rei político restaurador de Israel. Que viria cumprir, a exemplo de Davi, o papel de braço forte do Senhor[7], desbaratando o dominador opressor e trazendo paz e prosperidade àquela nação já há séculos humilhada em sua soberania. Valeria o risco de morte se, pela vontade de Deus, assim a nação de Israel fosse libertada do julgo do dominador romano. 

Não é sem motivo que ao longo dos acontecimentos, desde o nascimento de Jesus, passando por sua infância e até a sua fase adulta, Maria demonstrasse intrigar-se com as reais motivações dos fatos que se desenrolavam diante de seus olhos. Desde o relato dos pastores no nascimento do menino, ela cultivou o hábito de guardar em seu coração[8] e meditar sobre tudo que dizia respeito a Jesus. Talvez intuísse que suas impressões iniciais sobre o Messias não estivessem totalmente certas. Alguma coisa talvez estivesse escapando à sua compreensão. Todavia ela seguiu confiante e esperançosa em Deus, aguardando o que acreditava ser a promessa restauradora do Deus de Israel. Até à cruz, quando todos, sem exceção, seriam abalados em suas crenças e convicções. Nisso falaremos mais adiante. 

Que o Senhor nos inspire a seguirmos confiantes e corajosos, a exemplo de Maria, não obstante toda e qualquer circunstância. Aprendendo a guardar e a meditar em tudo quanto a Palavra de Deus nos revela. Esperando contra a esperança, confiando incondicionalmente em quem temos crido, ainda que entre nuvens, enxerguemos como que por espelho a glória que há de vir. Afinal, nosso reino não é neste mundo[9]."



[1] A dificuldade dos cristãos reformados em lidar com a figura de Maria, mãe de Jesus, pode ser atribuída a diversas razões, tanto teológicas quanto culturais. Geralmente está enraizada em diferenças teológicas, bem como em práticas religiosas divergentes entre católicos e protestantes.

1.       Ênfase na Suficiência de Cristo: Uma das principais preocupações dos reformados é manter a ênfase na suficiência de Cristo como o único mediador entre Deus e os homens. Qualquer prática ou crença que pareça desviar a atenção de Cristo e colocá-la em outra figura, como Maria, pode ser vista com desconfiança.

2.       Rejeição do Culto aos Santos: Os reformados geralmente rejeitam práticas de veneração ou adoração a santos, incluindo Maria. Eles argumentam que apenas Deus merece adoração e que a intercessão dos santos não é necessária para alcançar a graça divina.

3.       Ênfase na Escritura: Os reformados dão grande ênfase à autoridade das Escrituras como a única fonte infalível de revelação divina. Qualquer doutrina ou prática que não esteja explicitamente apoiada nas Escrituras pode ser vista com suspeita.

4.       Reforma Protestante: A Reforma Protestante foi em parte uma reação contra certas práticas da Igreja Católica, incluindo a veneração de Maria. Essa herança histórica pode influenciar a visão dos reformados sobre Maria, muitas vezes levando a uma postura de cautela ou até mesmo de rejeição velada a ela.

5.       Diferenças Doutrinárias: Além disso, há diferenças doutrinárias significativas entre o catolicismo e o protestantismo em relação a Maria, como a doutrina da Imaculada Conceição e a doutrina da Assunção de Maria.

Essas diferenças podem gerar desconforto e divisões entre os cristãos. Falaremos mais sobre isso quando oportuno.

[2] Na sociedade judaica do tempo de Jesus, tanto uma mulher quanto um homem sem filhos eram frequentemente vistos de maneira negativa. A cultura judaica da época valorizava muito a procriação e considerava a infertilidade como uma maldição ou um sinal de desfavor divino.

Para as mulheres, especialmente, a incapacidade de conceber era muitas vezes vista como um sinal de desonra e vergonha. Elas eram vistas como incapazes de cumprir seu papel fundamental de fornecer herdeiros para a família e perpetuar o nome do marido. Além disso, a falta de filhos podia deixar uma mulher vulnerável ao abandono ou à rejeição por parte do marido ou da comunidade.

Para os homens, a infertilidade também podia ser vista como um sinal de desaprovação divina. A incapacidade de gerar descendentes masculinos para continuar a linhagem familiar era considerada uma grande desgraça e poderia ser motivo de vergonha.

No entanto, a Bíblia também contém várias histórias de casais que enfrentaram a infertilidade e foram eventualmente abençoados com filhos. Por exemplo, Abraão e Sara, pais de Isaque, inicialmente lutaram com a infertilidade antes de receberem uma promessa de Deus de que teriam um filho. Da mesma forma, Ana, mãe do profeta Samuel, era estéril antes de Deus conceder-lhe um filho. Essas histórias mostram que, apesar das percepções sociais negativas sobre a infertilidade, Deus tinha o poder de transformar situações aparentemente desesperadoras em bênçãos.

[3] Maria, ao receber a notícia de que seria a mãe do Messias, pode ter se sentido surpresa, perplexa e talvez até mesmo incapaz de compreender totalmente o propósito de Deus em sua vida. Apesar de ser uma descendente de Davi, uma jovem simples e humilde de Nazaré, Maria pode ter se sentido inadequada para o papel extraordinário que lhe estava sendo designado.

O texto bíblico não fornece detalhes específicos sobre os sentimentos de Maria nesse momento, mas é razoável supor que ela tenha experimentado uma mistura de emoções, incluindo temor, humildade e talvez até mesmo um certo receio diante da magnitude da tarefa que lhe foi confiada. Afinal, ela era apenas uma jovem mulher sem experiência anterior de maternidade, e de repente se viu encarregada de trazer ao mundo o Filho de Deus. Essa sensação de inadequação ou incapacidade pode ter sido agravada pelas circunstâncias sociais e culturais da época.

Apesar de suas dúvidas iniciais ou sentimentos de inadequação, no entanto, Maria demonstrou uma fé profunda e uma corajosa disposição para obedecer à vontade de Deus. Ela respondeu à mensagem do anjo Gabriel com humildade e submissão, dizendo: "Eis aqui a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra" (Lucas 1:38). Essa resposta mostra que, apesar de suas dúvidas ou medos iniciais, Maria estava disposta a confiar em Deus e a se submeter à Sua vontade, mesmo que isso a levasse além de sua zona de conforto ou capacidade aparente.

[4] Nos tempos de Jesus, havia uma expectativa generalizada entre os judeus sobre a vinda do Messias e a redenção de Israel. Essa expectativa estava enraizada nas profecias do Antigo Testamento, que anunciavam a vinda de um líder messiânico que restauraria o reino de Israel, libertaria o povo judeu da opressão estrangeira e estabeleceria um período de paz e prosperidade.

Para os judeus da época, o Messias era visto como um herói nacional e um libertador político que cumpriria várias funções importantes:

1.       Restauração do Reino de Israel: O Messias era esperado para restaurar a glória e o poder do reino de Israel, unificando as tribos de Israel e estabelecendo um governo justo e poderoso.

2.       Libertação do Povo Judeu: Ele seria o libertador do povo judeu, livrando-os da opressão estrangeira, especialmente do domínio romano que prevalecia na época de Jesus.

3.       Estabelecimento do Reino de Deus: O Messias seria o instrumento de Deus para estabelecer o reino de Deus na terra, trazendo justiça, paz e prosperidade para todos os povos.

4.       Cumprimento das Profecias: Ele seria aquele que cumpriria as profecias messiânicas do Antigo Testamento, como aquelas encontradas nos livros de Isaías, Jeremias e Miquéias, entre outros.

Em resumo, a vinda do Messias e a redenção de Israel eram vistos como eventos históricos e salvíficos que trariam a restauração e a bênção para o povo judeu, bem como para toda a humanidade. Essas expectativas influenciaram profundamente a compreensão e as interpretações das pessoas sobre o Messias Jesus quando Ele efetivamente veio.Parte superior do formulário

 

[5] O culto a Maria, mãe de Jesus, começou a se desenvolver nos primeiros séculos do cristianismo, especialmente após o Concílio de Éfeso, em 431 d.C., que proclamou Maria como "Theotokos", ou seja, "Mãe de Deus". Esse título ressaltava a ligação íntima entre Maria e Jesus, enfatizando sua importância na teologia cristã.

Quanto à Ave Maria, a oração em sua forma básica remonta ao século XII, mas a versão completa, como a conhecemos hoje, foi estabelecida gradualmente ao longo dos séculos, com contribuições de diferentes fontes. O uso generalizado da Ave Maria na forma atual foi popularizado principalmente a partir do século XVI.

As informações sobre o início do culto a Maria e o desenvolvimento da oração "Ave Maria" são amplamente documentadas na história da Igreja Cristã e na literatura teológica. Esses eventos são estudados em textos acadêmicos de história da Igreja, teologia histórica e liturgia. Além disso, documentos históricos como atas de concílios ecumênicos, escritos dos pais da Igreja e registros da tradição católica e ortodoxa fornecem evidências sobre a evolução do culto mariano e das práticas de devoção relacionadas.

"Theotokos" é uma palavra grega que significa "Aquela que deu à luz a Deus" ou "Mãe de Deus". Ela é composta por duas palavras gregas: "Theos", que significa "Deus", e "tokos", que significa "aquele que dá à luz" ou "parturiente". Na língua grega, é escrita como "Θεοτόκος". Esta palavra é frequentemente usada na teologia cristã, especialmente na tradição ortodoxa, para se referir a Maria como a mãe de Jesus, que é considerado Deus encarnado.

[6] De acordo com a lei judaica, se uma mulher comprometida nupcialmente fosse achada grávida de outro homem que não seu noivo, isso seria considerado adultério. O adultério era uma violação séria da lei e, de acordo com a Torá (Lei de Moisés), o castigo para o adultério era a pena de morte, tanto para o homem quanto para a mulher envolvidos (veja Levítico 20:10). No entanto, a execução dessa pena era muitas vezes deixada para as autoridades civis ou religiosas da época.

Se uma mulher comprometida estivesse grávida do próprio noivo, isso geralmente não seria considerado um crime na lei judaica. Na cultura judaica da época, o noivado (ou compromisso) era considerado uma etapa preliminar ao casamento completo, e era comum que o casal se envolvesse sexualmente durante esse período. No entanto, isso exigia fidelidade mútua entre o noivo e a noiva.

Se o noivo fosse o pai da criança, isso não acarretaria em pena sob a lei judaica. No entanto, se houvesse dúvidas sobre a paternidade ou se o noivado fosse rompido por causa da gravidez, poderia haver implicações sociais e religiosas para a mulher e sua família, como a perda de status na comunidade.

 

[7] A expressão "o braço forte do Senhor" é usada em várias passagens da Bíblia, especialmente no Antigo Testamento, para descrever o poder de Deus em agir e realizar feitos extraordinários em favor do seu povo. Uma das referências mais conhecidas está em Êxodo 15:2, que diz:

"O Senhor é a minha força e o meu cântico; ele me foi por salvação; este é o meu Deus; portanto, eu o louvarei; ele é o Deus de meu pai, por isso o exaltarei." (Êxodo 15:2, Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

Essa expressão também é encontrada em outras passagens, como em Isaías 51:9:

"Desperta, desperta, veste-te de força, ó braço do Senhor; desperta como nos dias passados, como nas gerações antigas; não és tu aquele que cortou em pedaços a Raabe, e traspassou o dragão?" (Isaías 51:9, Almeida Corrigida e Revisada Fiel)

[8] A expressão "guardava todas estas coisas em seu coração" é encontrada em passagens do Novo Testamento, ambas relacionadas ao nascimento e à infância de Jesus:

1.       Lucas 2:19 (NVI): "Maria, porém, guardava todas estas coisas e sobre elas meditava em seu coração."

2.       Lucas 2:51 (NVI): "Então Jesus desceu com eles para Nazaré e lhes era obediente. Sua mãe, porém, guardava todas estas coisas em seu coração."

Essas passagens destacam a atitude reflexiva e contemplativa de Maria em relação aos eventos extraordinários que cercaram o nascimento e a vida de Jesus. Ela ponderava e refletia sobre esses acontecimentos, demonstrando sua profunda devoção.

[9] João 18:36

Essa afirmação de Jesus ressalta a natureza espiritual e transcendente de Seu reino, diferenciando-o dos reinos terrenos e políticos. Ele está enfatizando que Sua autoridade e propósito vão além das questões temporais.