quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Exercício 008 - Onde está Jesus? Alguém sabe?


Por Jânsen Leiros Jr


"41 Ora, seus pais iam todos os anos a Jerusalém, à festa da páscoa. 42 Quando Jesus completou doze anos, subiram eles segundo o costume da festa; 43 e, terminados aqueles dias, ao regressarem, ficou o menino Jesus em Jerusalém sem o saberem seus pais; 44 julgando, porém, que estivesse entre os companheiros de viagem, andaram caminho de um dia, e o procuravam entre os parentes e conhecidos; 45 e não o achando, voltaram a Jerusalém em busca dele. 46 E aconteceu que, passados três dias, o acharam no templo, sentado no meio dos doutores, ouvindo-os, e interrogando-os. 47 E todos os que o ouviam se admiravam da sua inteligência e das suas respostas. 48 Quando o viram, ficaram maravilhados, e disse-lhe sua mãe: Filho, por que procedeste assim para conosco? Eis que teu pai e eu ansiosos te procurávamos. 49 Respondeu-lhes ele: Por que me procuráveis? Não sabíeis que eu devia estar na casa de meu Pai? 50 Eles, porém, não entenderam as palavras que lhes dissera. 51 Então, descendo com eles, foi para Nazaré, e era-lhes sujeito. E sua mãe guardava todas estas coisas em seu coração.
52 E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens."
Lucas 2:41-52 - JFA

Esse texto de Lucas é esclarecedor para uma das especulações mais costumeiras com que a história de Jesus costuma se deparar: O que fez Jesus desde que nasceu até seus trinta anos aproximadamente, quando iniciou seu ministério? As teorias são as mais diversificadas possível, e algumas chegam a ser tão fantásticas, que tentam explicar um mistério, através de afirmações ainda mais misteriosas em suas possibilidades. Por que há tanta necessidade em se revelar algo que não faz o menor sentido descobrir, ainda que não haja absolutamente nada oculto, senão prosaico?

Ora, a infância, adolescência e juventude de Jesus, pelo que demonstra o texto, fora provavelmente comum a de tantos outros meninos e rapazes judeus daquela região. Jovem judeu, que auxiliava seu pai em sua profissão, tinha responsabilidades domésticas auxiliando a mãe, e brincando, quando possível, com as outras crianças de seu povoado. Sim, porque o texto apresenta José e Maria rigorosamente disciplinados nos costumes religiosos, seguindo as tradições de visita anual ao templo de Jerusalém na ocasião da páscoa, bem como cumprindo a tradição de levar o filho homem ao templo ao completar seus doze anos de idade, conforme o costume da festa.

O evangelista registra apenas que Jesus, obediente a seus pais, cumpriu tudo o que a lei de Moisés determinava. Obviamente porque em nada poderia ser sua reputação atacada, quanto aquilo em que se acreditava ser o cumprimento de toda a justiça. Jesus foi circuncidado ao oitavo dia, apresentado no templo findo o período de purificação de seus pais, uma vez que era o primogênito, subiu ao templo aos doze anos, e somente iniciou seu ministério, a partir do momento que sua maioridade o considerava autônomo, responsável isoladamente por tudo aquilo que dizia e pensava. Totalmente responsável por si mesmo.

E por que não há qualquer outro registro desse período de sua vida? Ouso dizer que se deve a não haver nada de interessante ou relevante nesse período, que pudesse interferir no processo de redenção da humanidade, ou que ajudasse a conhecer melhor o Filho de Deus. Em outras palavras, não há registro de nada disso, porque não interessa.

A vida de Jesus nessa época chamada oculta é tão comum e sem qualquer relevância, que ao fazer seu discurso na sinagoga, os presentes na sinagoga se admiravam de sua pertinência e tom seguro, relativamente ao texto do livro sagrado. Não é esse o filho do carpinteiro? Não vivem entre nós seus irmãos e irmãs? Não o conhecemos desde criança? Ele não costumava correr por nossas ruas brincando de pic ou de esconde-esconde?

A relevância da juventude de Jesus está resumida no final do texto que destacamos. E crescia Jesus em sabedoria, em estatura e em graça diante de Deus e dos homens, versículo 52. Ou seja, ele não foi levado da casa de seus pais para nenhum lugar especial, cuidado e ensinado por pessoas especiais, ETs, ou membros de seitas quaisquer. Ele cresceu e amadureceu diante dos olhares comuns de gente comum. Tendo uma vida comum, com responsabilidades comuns e provavelmente muito trabalho. Se assim não fosse, Jesus não conheceria tão bem os costumes e o comportamento religioso de seus compatriotas. Ao dizer ouviste o que foi dito, ele sabia exatamente em que contexto comportamental e religioso tais afirmações eram feitas.

Há um destaque curioso dado por Lucas; crescia em graça diante dos homens. Parece que Lucas evidencia que Jesus contava com a admiração dos seus circunstantes. Vizinhos e conhecidos pareciam gostar daquele menino que virou jovem e depois adulto, diante de seus próprios olhos. Jesus viveu a realidade cotidiana daquela gente, e isso o fortaleceu em sabedoria e promoveu seu crescimento físico natural. Portanto Jesus não teve, senão, uma vida comum; então, descendo com eles, foi para Nazaré, e era-lhes sujeito.

O mais interessante nessa passagem, contudo, é o susto de Maria e José com o "sumiço" de Jesus. Notem que eles chegaram a andar caminho de um dia, até darem conta de que Jesus não estava com eles. Um dia para ir e portanto mais um para voltar, e eu fico imaginando a apreensão daqueles pais, não tendo como saber o que poderia ter acontecido com o menino. Um retorno tenso certamente, pois ainda que o encontrassem logo que chegassem a Jerusalém, Jesus já teria ficado dois dias sozinhos. Como teria feito para comer? Como teria feito para dormir? Como deveria estar se sentindo? Afinal, ele havia sido deixado para trás; sua ausência não foi notada por um dia inteiro.

Um esquecimento desse poderia ter diversas razões, mas uma é inevitavelmente óbvia. Jesus não foi prioridade do cuidado nem de José, e nem de Maria. Não vai aqui qualquer juízo de valor quanto a qualidade do cuidado paterno e materno de ambos. Muito pelo contrário. Uma viagem de Nazaré a Jerusalém estimada na época em aproximadamente 5 dias, não era tarefa fácil de se empreender. Muitos preparativos; alimentos e água para o caminho. Tendas para se abrigarem. Enfim, muitas coisas para serem providenciadas, e como dizia minha avó, criança cega a gente. Nessa Jesus ficou e seus pais partiram. Acham que não?

- Onde está Jesus? Não o vejo desde que partimos. Disse Maria para José, enquanto ajeita a carga sobre o jumento que os auxiliava no transporte. - Deve estar lá atrás, com os outros meninos. Não se preocupe, mais tarde quando a fome apertar ele aparecerá. Respondeu José caminhando e puxando os arreios do mesmo jumento. Imaginem a cena. Alguém aí se identificou? Não é mesmo assim que fazemos, pais e mães que me leem? Os pais que jamais travaram um diálogo desses que me atirem a primeira pedra. Assim isento de culpa tanto Maria quanto José.

Lucas porém nos deixa implícito um contundente alerta. Quanta gente empreende viagem de uma vida inteira, sem sequer notarem a falta que Jesus lhes fez? Precisou o cansaço do dia de viagem chegar, precisou dar a hora do corpo descansar, para que a ausência de Jesus fosse notada. Quantos, próximos do descanso de seus corpos já cansados, percebem que caminharam tão longe, e se fatigaram tanto, sem que Jesus tivesse participado de suas vidas. Sem que o sabor de sua presença lhes renovasse as forças ou desse sentido a cada passo.

José e Maria, ao perceberem a ausência de Jesus, consideraram que pudesse estar junto aos companheiros de viagem, e por fim acreditaram estar entre os parentes e conhecidos. Descansaram na hipótese de que outros estivessem com Jesus, e que isso seria o bastante para o sucesso da viagem. Diante da realidade daquele vazio retornaram para busca-lo. Não havia mais qualquer sentido continuarem aquela empreitada, aquela viagem, sem que Jesus lhes estivesse em companhia. Era preciso retornar, buscá-lo e acha-lo. Como chegar em Nazaré sem Jesus? Como dar mais um passo sequer sem o menino?

Por fim o encontraram. Três dias ao todo sem Jesus, o que prefigurava o tempo que passariam sem ele mais adiante, entre sua morte e ressurreição. Três dias procurando por alguém que jamais deveriam ter deixado sair de perto deles. Procuraram ansiosamente como declarou a própria Maria ao falar com Jesus sobre sua apreensão, certamente em meio a um misto de alívio e indignação; por que procedeste assim conosco? Tensa pelo susto, justa aflição, Maria reverte a responsabilidade pelo que passava e culpa o menino. Ora, quem era o adulto e quem era a criança? Seria hoje um caso de abandono de incapaz?

Agora observem a resposta de Jesus. Ele em momento algum se atreve a responder malcriadamente a Maria. Antes ele demonstra entender a aflição de seus pais e lhes diz por que perderam tempo me procurando por aí? Não seria de se concluir que só haveria uma única possibilidade, que eu estivesse na casa de meu Pai? Não haveria outro lugar para se achar Jesus. O templo seria um lugar de encontros, uma referência para todo e qualquer peregrino. O templo era o lugar em que perdidos e desencontrados poderiam se achar. Em que outro lugar poderia estar Jesus, senão na casa de seu Pai? Mais um fato para a lista de acontecimentos que falavam ao coração de Maria. Penso que essa lista provavelmente era longa. 

Que nossas viagens pela vida, nossas caminhadas, curtas ou longas, jamais sejam empreendidas sem Jesus. Mas acaso tal desencontro se dê, que nossos corações sejam impelidos a busca-lo e acha-lo, para dar sentido à nossa marcha, tanto quanto relevância e sabor. Arrepender-se é mudar de caminho, é voltar atrás. É recuperar a jornada inglória, é refazer o caminho sem fim. Não há qualquer vergonha em retornar e buscar Jesus. Pior é tentar chegar em Nazaré sem ele.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

Exercício 7 - Pelo que tantos aguardavam?


Por Jânsen Leiros Jr

Revisado e ampliado em 26/04/2025


"21 Quando se completaram os oito dias para ser circuncidado o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto antes de ser concebido.  
22 Terminados os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, levaram-no a Jerusalém, para apresentá-lo ao Senhor 23 (conforme está escrito na lei do Senhor: Todo primogênito será consagrado ao Senhor), 24 e para oferecerem um sacrifício segundo o disposto na lei do Senhor: um par de rolas, ou dois pombinhos.  
25 Ora, havia em Jerusalém um homem cujo nome era Simeão; e este homem, justo e temente a Deus, esperava a consolação de Israel; e o Espírito Santo estava sobre ele. 26 E lhe fora revelado pelo Espírito Santo que ele não morreria antes de ver o Cristo do Senhor. 27 Assim pelo Espírito foi ao templo; e quando os pais trouxeram o menino Jesus, para fazerem por ele segundo o costume da lei, 28 Simeão o tomou em seus braços, e louvou a Deus, e disse:  
29 Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo, segundo a tua palavra;  
30 pois os meus olhos já viram a tua salvação,  
31 a qual tu preparaste ante a face de todos os povos;  
32 luz para revelação aos gentios, e para glória do teu povo Israel.  
33 Enquanto isso, seu pai e sua mãe se admiravam das coisas que deles se diziam. 34 E Simeão os abençoou, e disse a Maria, mãe do menino: Eis que este é posto para queda e para levantamento de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição, 35 sim, e uma espada traspassará a tua própria alma, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações.  
36 Havia também uma profetisa, Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser. Era já avançada em idade, tendo vivido com o marido sete anos desde a sua virgindade; 37 e era viúva, de quase oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia em jejuns e orações. 38 Chegando ela na mesma hora, deu graças a Deus, e falou a respeito do menino a todos os que esperavam a redenção de Jerusalém.  
39 Assim que cumpriram tudo segundo a lei do Senhor, voltaram à Galiléia, para sua cidade de Nazaré. 40 E o menino ia crescendo e fortalecendo-se, ficando cheio de sabedoria; e a graça de Deus estava sobre ele.
Lucas 2:21-40 - KJA

Passados quarenta dias do nascimento, seguindo o que a Lei de Moisés prescrevia para a purificação da mãe e a consagração do primogênito (Lv 12.1-8; Ex 13.2), Maria e José levaram Jesus a Jerusalém para apresentá-lo ao Senhor. Aquelas eram práticas comuns entre os judeus piedosos, reafirmando não apenas a obediência ritual, mas também a esperança messiânica que ardia no coração de Israel.

O detalhe de que Jesus foi apresentado como primogênito é significativo: segundo a lei, apenas o primeiro filho a "abrir a madre" da mulher deveria ser consagrado a Deus (Êx 13.2; Nm 3.12-13). Se José já tivesse filhos de um matrimônio anterior — como sugeririam tradições muito posteriores —, não haveria a necessidade de apresentar Jesus como tal. A narrativa reafirma, assim, a ausência de filhos anteriores e confirma Jesus como o legítimo primogênito de Maria e José aos olhos da lei judaica.

Para Maria e José, esse momento selava a consagração de seu primogênito — aquele que, segundo a palavra do anjo, seria chamado "o Filho do Altíssimo" (Lc 1.32). Contudo, como tantos em seu tempo, sua expectativa não ultrapassava os limites nacionais: esperavam um rei libertador, um novo Davi que restauraria a soberania de Israel frente às humilhações estrangeiras. A profundidade da missão de Jesus, muito além das fronteiras de Israel, permanecia, naquele momento, velada para eles.

Ao entrarem no Templo, dois personagens da velha aliança se apresentam como testemunhas do que ocorria: Simeão, homem justo e piedoso, e Ana, profetisa de idade avançada, ambos representando a geração fiel que aguardava a redenção de Israel.

Simeão, movido pelo Espírito Santo, reconhece no menino a esperança prometida. Ao tomá-lo nos braços, declara publicamente que seus olhos viram a salvação preparada por Deus "à vista de todos os povos" (Lc 2.30-31). Este detalhe — a salvação destinada não apenas a Israel, mas a todos os povos — revela, já nas primeiras testemunhas, que o Messias seria infinitamente maior do que o esperado pelas tradições nacionalistas.

Ainda assim, a bênção de Simeão a Maria carrega uma sombra: "E uma espada transpassará a tua própria alma" (Lc 2.35). Uma previsão sombria, que anunciava a dor que um dia ela sofreria não apenas pela morte do filho, mas pelo colapso de suas esperanças messiânicas imediatas.

Ana, por sua vez, proclama a todos os presentes que aquele menino era a redenção aguardada. Seu testemunho reforça publicamente a autenticidade da identidade messiânica de Jesus. Com isso, o cenário está montado: o Messias é apresentado sob o testemunho público e legítimo da velha aliança, impedindo que, no futuro, sua missão fosse interpretada como um arranjo forjado por seguidores tendenciosos.

Assim, a apresentação de Jesus no Templo não é apenas o cumprimento de um ritual religioso; é a ratificação histórica de que a nova aliança emergia das raízes da antiga, em plena continuidade e fiel à promessa. Israel, ainda que inconsciente de todo o plano de Deus, testemunhava o início de uma revolução muito maior do que podia imaginar.

Embora o Evangelho não registre em palavras, o gesto de Maria e José diz tudo: eles se calaram diante do mistério daquele momento e, com o coração rendido, disseram ao Senhor ‘Eis-me aqui, usa-me a mim’. Não anunciavam suas próprias vontades, mas colocavam suas vidas à disposição do desígnio divino, conscientes de que faziam parte de uma história muito maior do que qualquer plano humano.

Exercício Espiritual — Reconhecer o Invisível

Meditação:
Assim como Maria e José, muitas vezes vivemos nossas tradições e práticas de fé, sem nos darmos conta da profundidade da obra de Deus em nós. Eles apresentaram Jesus no Templo segundo a Lei, mas ainda não conseguiam enxergar toda a extensão da missão de seu filho. Da mesma forma, Deus também realiza promessas em nossa história que, muitas vezes, nos parecem confusas, frustradas ou incompletas à primeira vista.

Exame:

  • Sou capaz de confiar em Deus mesmo quando Seus caminhos me parecem ocultos?
  • Minha fidelidade nasce da esperança no cumprimento do Seu plano eterno, ou de expectativas pessoais e imediatas?
  • Como posso aprender, a exemplo de Maria e José, a confiar no que Deus está realizando, mesmo sem ver plenamente seus frutos agora?

Ato espiritual proposto:

Em oração, apresente a Deus seu coração inteiro — não para buscar a realização de projetos pessoais, mas para reafirmar sua entrega confiante ao plano eterno de Deus. Reconheça que Sua vontade é maior e melhor do que qualquer expectativa humana, e disponha-se a caminhar em fidelidade, mesmo sem compreender todos os Seus caminhos agora.

Versículo para meditação:

"Os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor." (Isaías 55.8)